Bruno, Mércia e as Teorias da Comunicação

16 de jul de 2010

Em qualquer telejornal desse país só se falam de duas coisas, o assassinato envolvendo o goleiro do FLAMENGO e a morte da advogada Mércia Nakashima. Dois crimes bárbaros e chocantes sem dúvida alguma. Porém, não se fala em outra coisa e isso me intriga (tanto quanto os desdobramentos dos casos).

Nosso país vive momentos de muita violência, onde crimes dos mais hediondos acontecem aos montes e a população vive amedrontada. Porém, mesmo com esse medo, a brutalidade vista nos jornais é tanta que praticamente nada mais choca as pessoas. Tanto que um filme como JOGOS MORTAIS, por exemplo, tem que apelar muito e fazer coisas muito absurdas para conseguir abismar seu público, já acostumado com a violência do dia-dia. Com toda essa crueldade estampada em cada capa de jornal desse país, porque é que os dois casos citados no início desse texto recebem tanta atenção da mídia?

A resposta para isso pode ser encontrada facilmente nas teorias da comunicação, em especial a do “Gatekeeper” e da “Agenda Setting”, que são ensinadas em todas as faculdades de jornalismo, mas que muitas vezes nem se dão conta na prática (nem os comunicólogos e nem os telespectadores). A primeira dessas teorias estuda o fato do jornalista/editor escolher aquilo que deve e aquilo que não deve ser publicado, o que é relevante ou não. Se preferir, em bom português: aquilo que irá lhe trazer mais lucros, vender mais jornais, ter maior audiência e assim aumentar o valor cobrado de seus anunciantes.

 Já a “Agenda Setting” estuda a ocorrência dos meios de comunicação escolherem aquilo que deve pautar as discussões da sociedade. Por exemplo, se a mídia quiser dar maior ênfase para um determinado assunto, como sempre fazem, vai jogá-lo à exaustão no ar e assim a população irá debater sobre o caso. Os meios de comunicação é que decidem sobre o que as pessoas vão falar no dia seguinte. Sejam sobre futebol, novela, desastres naturais ou assassinatos bárbaros.  

Sendo assim os casos do goleiro Bruno e da advogada Mércia foram aprovados pelo Gatekeeper porque, apesar dos tantos casos de assassinatos horríveis que assolam nosso país, estes dois têm como personagens pessoas conhecidas, influentes e ou ricas. Porque a verdade é essa, se tratassem de pessoas pobres, fatalmente ganhariam apenas uma pequena nota nos jornais e o desenrolar do caso talvez nem chegasse a conhecimento do público. Mas como em ambos os casos os envolvidos são pessoas notáveis dentro da sociedade (um goleiro de time grande e uma advogada) a população acaba consumindo mais a notícia e os donos de mídia faturando mais dinheiro consequentemente.

Aí entra também a teoria do agendamento, pois para manter os casos em evidência e assim continuarem lucrando, é de interesse dos meios de comunicação continuarem noticiando os casos para manter seu ibope nas alturas. Dessa forma a população discute cada vez mais os desdobramentos e novas pistas descobertas pela policia e assim se envolvem mais no caso, a fim de chegarem ao desfecho dos mesmos.

Para conseguir realizar esse agendamento, dá-lhe reportagens e mais reportagens a respeito, entrevista com familiares, repetição de fotos, gravações e imagens, etc. Qualquer novo mínimo detalhe acaba virando manchete em todos os veículos de comunicação. O lado bom dessa cobertura total da mídia é que acaba pressionado policiais e investigadores a trabalharem mais intensamente e se empenharem mais. 

Entretanto, deixando as teorias da comunicação de lado e apostando na teoria da conspiração: até que ponto é interessante para a mídia que esse tipo de caso tenha um desfecho rápido? Afinal, qualquer nova pista é sinal de audiência garantida para os telejornais. Sendo assim para a mídia pode ser muito mais lucrativo que o caso demore a se desenrolar para continuarem tendo audiência e a partir do momento em que o público estiver cansado, finalizarem o caso. E tendo em mente o poder que os meios de comunicação possuem, não é difícil que a polícia “respeite” isso e conclua o caso quando for de interesse da mídia. 

4 comentários:

Paulinha disse...

A mídia coloca em foco o que ela quer. Cria a moda e o assunto do momento que ela escolhe.
Foi como o caso do H1N1. esse ano ninguém mais morreu de gripe? rs
o ano passado foi esse o assunto que deu pauta, que deu lucro e rendeu ibope... qtas pessoas morrem de gripe que não é do tipo H1N1 todo ano? pneumonia, entre outras doenças? várias!!! mas enfatizaram esse vírus, deixando todo mundo com medo e criando várias histórias em torno dele. Algumas pessoas morreram, sim, mas morreram como morrem pessoas todos os dias por vírus e mais virus que estão por aí...rs...
claro q de fato é de chamar a atenção um "atleta" (eu nao costumo considerar jogador de futebol um atleta, mas enfim) ter cometido um assassinato. porém, nada de surpreendente... qtas pessoas são assassinadas injustamente, das piores formas no país td os dias?
enfim, é isso aí... se é uma pessoa de poder aquisitivo ou alguma celebridade qq, a mídia irá jogar seu foco para obter lucro com isso... se é um assunto relacionado a saúde que dê pano pra manga, será ouvido por um bom tempo.. seja em revistas, jornais, publicidade e etc!

Paulinha disse...

só pra terminar... o q é mais interessante nisso tudo, é q daqui a algum tempo ninguém mais vai se lembrar de nada! pq a mídia simplesmente usa uma "borracha", muda o foco pra outro assunto que dê lucro e faz com que o povo se esqueça do que tanto foi falado antes... rs

Carlos Eduardo Garrido disse...

Exatamente Paulinha, assim como no caso da Gripe H1N1 que foi um baita alarde e agora ninguém ao menos se lembra do "sucesso" que ela fez ano passado. Ela continua aí na ativa, mas deixou de ser mainstream e passou para o underground...rs

Tudo depende daquilo que rende para os meios de comunicação e arrancar dinheiro de tragédias é o que mais sabem fazer e tal qual um minerador, eles vão explorar a desgraça alheia o máximo que conseguirem para atingir lucros.

Carlos Eduardo Garrido disse...

É só a mídia arrumar um outro assunto e o velho é esquecido de deixado de lado. E os meios de comunicação passando essa borracha, como você chamou, a sociedade também apaga de suas próprias memórias.

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