Cada vez mais técnica, cada vez menos feeling

6 de jun de 2010


Que eu sou um grande apreciador do heavy metal e de suas mais variadas vertentes não é segredo para ninguém. Desde os meus 15 ou 16 anos brado avidamente pelos quatro cantos que não existe melhor estilo de música para ouvir. E continuo mantendo esse pensamento até hoje e talvez até o resto de minha vida. Os motivos para isso são diversos e o principal deles é que agrada os meus ouvidos e isso já bastaria para ser minha música preferida, pois discutir sobre gosto pessoal nunca levou ninguém à lugar algum. E antes de qualquer coisa, música tem que satisfazer o gosto pessoal de cada um. Porém existem outras razões para esse ser o estilo único e amado que é.
Como todos metallers gostam de alegar, as músicas de heavy metal são mais bem trabalhadas e elaboradas do que a maioria das canções de outros estilos. Salvo jazz, música erudita e talvez a bossa nova. Dentro do mundo metálico dificilmente vamos achar músicos com pouco conhecimento ou que simplesmente aprendeu alguns acordes com um amigo e resolveu montar uma banda. Tocar rock pesado exige muito treino, estudo e dedicação. Não é a toa que muitas músicas do estilo trazem técnicas apuradas e certa dificuldade de execução. O que é orgulho para todo fã do gênero, que gosta de dizer que escuta música de qualidade, bem trabalhada e sofisticada.
Porém, todo esse aperfeiçoamento técnico, que acaba criando música cada vez mais complexa, acaba também comprometendo aquilo que chamamos de feeling. Feeling, palavra inglesa que pode ser traduzida como “sentimento”, é algo fundamental em qualquer forma artística de expressão, seja teatro, pintura ou música. Dentro do metal diversas vezes este feeling é substituído por uma busca incessante em criar músicas com maior número de notas possíveis, mudanças bruscas de compasso e outras exibições gratuitas de técnica musical. Aliado a isso está à falta de criatividade que tem assolado o meio metálico, ocasionando em músicas que mais parecem uma competição de velocidade, e que, pouco ou nada acrescenta ao ouvinte. As bandas (tanto as novas, como algumas que se prenderam em seus próprios métodos) cada vez mais fazem música repetitiva e com fórmulas já prontas.
O maior exemplo disso reside no chamado Metal Melódico (mas não apenas nele). Para comprovar isso basta contar quantas vezes você já ouviu músicas como “Eagle Fly Free” (HELLOWEEN) ou “Against the Wind” (STRATOVARIUS) gravadas por outras bandas e com outros nomes. Óbvio que vão existir muitos elementos diferentes, mas a fórmula é exatamente a mesma de uma delas. Ok, você adora todos esses elementos, riffs, solos e bumbo duplo, tudo na velocidade da luz, vocal alto, viradas de bateria, um pequeno solo de baixo, etc... e eu também amo isso, mas cada vez isso é mais frequente. O que é triste. Dá a impressão de que os compositores não têm inspiração alguma para criar essas músicas. Eles simplesmente pensam “vamos lá, vamos criar uma faixa na linha daquele clássico do HELLOWEEN. Isso, aumente a velocidade aqui, coloque este solo ali. Agora, cante o mais alto que conseguir! Pronto!”. Onde está o feeling de uma música composta dessa forma?
A resposta para essa pergunta é certa. Ele não existe. O que me faz pensar que o que escutamos ali não se distancia tanto assim de um produto pop, que tanto criticamos, criado pela indústria para atingir a demanda de mercado. Ainda que não seja exatamente a mesma coisa, passa bem próximo. A diferença é que os músicos das banda de metal possuí inegável talento e compõe suas próprias músicas, porém, apostando numa fórmula de sucesso já pré-concebida.
Entretanto, generalizar nunca é sábio e existe, claro, bandas que tentam se reciclar e criar coisas novas. Como, por exemplo, acontece com os brasileiros das bandas ANGRA e DR. SIN, que buscam novas alternativas para seu som. A primeira mostrou grandes lampejos de criatividade em toda sua discografia,mas principalmente nos álbuns “Holy Land” e “Temple of Shadows”. Enquanto a segunda sempre buscou uma identidade própria com seu hard rock deveras trabalhado. Há outras bandas que merecem destaque nessa empreitada criativa. Grupos como BLIND GUARDIAN, NEVERMORE, ORPHANED LAND, DREAM THEATER e KAMELOT também desenvolveram seus próprios meios de fazer heavy metal e alcançaram resultados muito satisfatórios.
Isso sem falar nos casos em que a banda consegue criar algo diferenciado e se sobrepor aos outros grupos do gênero, mas acabam sendo imediatamente clonados também. Como é o caso dos italianos do RHAPSODY e o dos escandinavos das bandas OPETH, BATHORY, DIMMU BORGIR e NIGHTWISH. Que mal se tornaram relevantes e já começaram a surgir grupos com sonoridade bastante parecida.
O assunto é extenso e a discussão ainda maior. Então não pretendo me estender ainda mais. O fato é que pouca coisa nova tem acontecido na cena metal e pior que isso, parece que cada vez mais os músicos têm deixado o feeling em segundo plano em prol de mostrar o como são bons com seus instrumentos. Talvez por conta disso, cada vez mais volto meus ouvidos para bandas, ditas clássicas, que mesmo fazendo um som bem trabalhado, não eram aprisionadas por isso e conseguiam passar suas emoções através das músicas. 

9 comentários:

Jonas disse...

Concordo, em partes, com o que você disse. Feeling é essencial. E procuro bandas que tem esse feeling. Infelizmente as bandas que eu gosto você pode não gostar, e as bandas que voce gosta, outro pode não gostar. Sei que não acharei outro Metallica para fazer o som da minha vida, mas percebo que faltam bandas com todo esse feeling que faz milhares de pessoas irem ao mesmo lugar, não importando as condições climáticas e nem o valor (que geralmente é MUITO ALTO). Saindo um pouco do "tema" feeling, fico triste de ver chamarem Cine e restart de rock. Convido a todos que leem isto que estou escrevendo a pensar que...Beatles era rock...pera lá...sendo assim cine está no mesmo segmento dos beatles??? Não quero ofender (aqui) quem gosta de Cine, porque, voltando à questão do feeling, Cine pode ter o feeling que fulana de tal procura, mas que de qualquer forma não pode ser chamado de rock e muitas outras bandas que não podem ser chamadas de metal. Espero que o VERDADEIRO FEELING reapareça em bandas de qualidade.

Luciano Luck Lopes disse...

Concordo e assino em baixo com tudo que foi dito aqui começo a ficar fã desse blog. parabéns mais uma vez e continuem o excelente trabalho. aproveito para citar algumas outras bandas que também tem muita lenha para queimar e que tem o Feeling muito bem vincado graças a Deus, aqui vai EVERGREY,PAIN OF SALVATION,qualquer um do melhor vocal da atualidade o JORN LANDE tanto na carreira solo quanto nos variadíssimos projetos, AYREON entre alguns.

Alessandro disse...

ah cara, como bluesman o metal tem me decepcionado a séculos....eh sempre aquele mesmo bliubliublou...acho o dream theatre uma bosta aguda. e as demais banda do estilo também. e do dimmu borgir só tiro o sagrath por causa do chrome division....

Anônimo disse...

Ótimo texto.
A culpa as vezes é das gravadoras que manipulam as bandas.
Outra coisa que também me parece ser uma causa é a "composição forçada", a banda vai gravar um album, compoe 4 musicas com feeling, mas precisa de 10 musicas pra fechar o album, dai forçam as composições(muitas vezes sob pressão das gravadoras) e fica sem aquele feeling nescessario.
E tem também o "musico bom de cover", aquele que sabe não sabe compor nada, ja toquei com um guitarrista assim...o cara era otimo...tecnica de primeira, mas na hora de compor..ja era...

Anônimo disse...

Olá Carlos, inicialmente, gostaria de parabenizá-lo pelo blog e pelos seus textos.
Quanto a este artigo, gostaria de debater sobre um fato que me ocorreu: o Nightwish não criou o rotulado Symphonic Gothic/Power Metal, pois a banda Therion já havia dado vida a esta fórmula musical.

Até Mais.

Carlos E. Garrido - Café com Ócio disse...

Obrigado pelos elogios.

O caso das gravadoras que exigem esse ou aquele tipo de música é uma coisa muito complicada mesmo. E nós, como meros ouvintes, não temos como saber até que ponto a gravadora influencia e até onde é opção das bandas.

Quanto ao Therion, realmente foi eles quem deram vida a está fórmula. Mas comercialmente falando o Nightwish se tornou bem mais conhecido. Até porque a banda finlandesa é mais acessível mesmo. Sem desmerecê-los, é claro.

Marcelo Brito disse...

Carlos você conhece ORPHANED LAND, esses caras são demais, você podia fazer uma resenha deles igual a do KAMELOT, vc escreve muito bem!

Carlos E. Garrido - Café com Ócio disse...

Marcelo, eu já cheguei a ouvir alguma coisa de Orphaned Land, mas bem pouca coisa... Pelo que me lembro tem um som cheio de influencias de música do oriente médio... Vou procurar pra resenhar um álbum deles.

Muito obrigado pelo elogio!

ISRAEL ISHELL disse...

Eu sou puramente Heavy Metal (todas as vertentes de metal me agrada). Sou apreciador incondicional de Blind Guardian, me orgulho muito de ter conseguido o Batalions of Fear e o Nightfall autografados com caneta prateada (meus tesouros). Toco um pouco de guitarra, e curto muito mais fazer a parte de Riffs e Base que solo. As Bandas atuais, ou apelam para um visual que a midia compre, ou fazem música para serem colocadas nos níveis mais complicados de jogos como guitar hero. Esquecem que o mais importante da música não é o solo, mas sim a base e o riff, que é o que vai grudar na memória. Se a música tem 5 minutos, a base fica presente bastante tempo, um riff também... O solo fica alguns segundo, e tem uma função parecida com a parte vocalizada. Como disse gosto de Blind Guardian, os guitarristas dessa banda são excelentes, possuem grandes solos (Andre Olbrich), mas me agrada muito o que Marcus Siepen faz, riff simples, mas que entram na cabeça e não sai (como o inicio de Mirror-Mirror), mas pra mim em The Curse Of Feanor (a parte que o riff segue o vocal de Hansi), mostra muito feeling. É uma das músicas que coloco no top da banda (minha opnião)... É uma pena que os Bardos não a toquem nos shows.

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