Estudo Errado

8 de nov de 2010


No último final de semana aconteceram as provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em todo o Brasil. O exame serve para ajudar os alunos a pleitearem bolsas de estudos nas universidades. E assim como o vestibular, também é o que justifica tudo aquilo que não aprendemos em 11 anos frequentando a escola. Afinal, todo aquele monte de matéria que nossos, nem sempre, esforçados professores tentam nos ensinar, na verdade só serve para você fazer essas provas e assim tentar uma vaga na faculdade.

Qualquer um gosta de dizer que a escola serve para educar as crianças e os adolescentes e que serve também para ensinar-lhes muita coisa e assim afastá-los da ignorância. Na realidade, qualquer um que já tenha frequentado uma, sabe que ela serve muito pouco para qualquer uma dessas coisas.

Vejamos. Nos primeiros anos de estudo, até que os alunos aprendem coisas realmente úteis. Ler e escrever; e o básico da matemática (somar, subtrair, multiplicar e dividir). Tudo completamente essencial. Porém, depois disso, a coisa vai se deturpando um bocado e tem inicio a era da decoreba. Os alunos são apresentados a história e a geografia do Brasil. Ambas de forma muito superficial, é verdade. E ainda que com méritos do professor, as vezes a matéria se aprofunda um pouco mais e fica em um nível satisfatório. Mas no fim, o que vai fazer o aluno conseguir nota alta, vai ser ele pegar aquelas questões que lhe foram passadas e decorá-las. Mesmo que não entendam. A mesma tônica vale para as tabuadas que lhe se apresentadas logo em seguida. 

O hábito da leitura que é tão importante para o desenvolvimento das pessoas, é obviamente incentivado pelos professores. Só que de forma errada. Ao invés da escola indicar livros com um enredo e uma linguagem que atraia os alunos, ela faz justamente o oposto. Os jovens são obrigados a lerem obras que nada tem haver com seu cotidiano e com  uma linguagem que já caiu em desuso faz muito tempo. Se estes forem os primeiros livros que o aluno teve contato na vida, logo, vai achar que ler é algo muito chato.

 E porque eles são confrontados já de cara com livros tão antigos? Porque essas são obras clássicas e que vão cair no vestibular. Só por isso. Simples assim. Culpa do vestibular.

O que deveria ser feito, é a principio colocar a criança em contato com livros contemporâneos com histórias que sejam interessantes para elas, mesmo que não seja uma baita obra rebuscada e cheias de nuances e figuras de linguagem. Pois, tendo contato com uma literatura mais POP, será possivel  desenvolver nelas o prazer da leitura. Se isso acontecer desde cedo, com certeza uma hora ela vai ter contato com essas grandes obras de literatura nacional, que tanto querem nos obrigar a ler. Mas isso vai acontecer porque ela já vai estar habituada com a leitura e vai buscar mais e mais livros. Do contrário, vai achar que livros são uma coisa chata e que só toma seu tempo. Assim como eu já achei um dia.

As noções de ciência também são muito importantes para conhecermos como funcionam os organismos, as bactérias, o que é o sistema solar e mais uma penca de coisas interessantes. Entretanto, quando você chega no colegial e ela se desdobra em biologia, química e física, a coisa fica um pouco forçada. Assim como acontece com a matemática quando ela se torna um monte de fórmulas que você nunca mais vai querer usar na vida. Aí é quando o aluno começa a se perguntar: “pra que eu preciso saber disso?”. Realmente, se você não for querer cursar uma faculdade dentro dessas áreas, você provavelmente não vai usar essas coisas para mais nada durante toda sua vida. Até porque você vai ter decorado aquele monte de fórmulas só para conseguir as notas necessárias. E sendo assim, mesmo que um dia você precise utilizá-las, com certeza, não vai mais lembrar como elas eram...

De qualquer forma, a resposta para aquela pergunta que o aluno começa a se fazer é sempre a mesma. Independente se ele quer saber o porquê de precisar ler aquele livro chato, ou o porquê de aprender aquele monte de fórmulas ou porque teve que decorar a tabela periódica, etc. Invariavelmente a resposta é sempre a mesma: porque cai no vestibular. Sempre ele.

Então aqueles 11 anos (entre ensino fundamental e médio) basicamente só servem para você prestar vestibular ou fazer ENEM (que é uma muleta para o vestibular). Ou seja, se você nem sequer pretende fazer uma faculdade, você desperdiçou mais de uma década de escola. E se você pretende cursar o ensino supeior, vai perceber que tão logo passar no vestibular, você novamente vai poder descartar todas aquelas coisas novamente. E o pior, antes de ser aprovado, você vai se ligar que como “aprendeu” tudo na base da decoreba, quando chegar a hora de prestar o supracitado vestibular, você não lembrará nem metade das coisas que viu nos tempos de escola. Daí, tome cursinho preparatório e tome mais uns anos para relembrar todas aquelas coisas, até então, inúteis.

Chego a concluir que o vestibular pode ser considerado o câncer da educação brasileira. Afinal, se não fosse por ele, nossos tempos de escola poderiam ter sido muito mais úteis. Os alunos brasileiros poderiam aprender alguma profissão durante o ensino médio, por exemplo. Durante esse longo período escolar poderiam ensinar, de verdade, outro idioma ou até outros idiomas. Os professores poderiam educar as crianças a ter senso e conhecimento político. Dessa forma, todos saberiam para que serve um deputado e não teriam que esperar o Tiririca descobrir para nos contar. Isso para não citar um milhão de outras coisas mais importantes do que decorar matérias que só servem para prestar uma prova.

Pouco adianta colocar escola em tempo integral ou tentar melhorar as condições dos professores, dos materiais escolares ou as estruturas fisicas das instituições de ensino. Para conseguir um desempenho superior na educação dos brasileiros e assim, criar cidadãos mais conscientes e preparados, a mudança tem que ocorrer primeiramente na forma como acontece o acesso às universidades, ou seja, uma mudança radical no vestibular.  

1 comentários:

Raul disse...

Concorno. Nosso modelo atual é realmente ruim. Acho que depois dentro do ensino médio, o aluno deveria ter uma grade elaborada conforme a área em que pretende atuar. Com um minimo de cada matéria, para o sujeito não se tornar um alienado, mas também sem forçar um aluno de humanas a aprender conteúdo que ele só usaria num curso de engenharia, ou obrigar um aluno de exatas a aguentar intermináveis bimestres de literatura.

Quanto ao Enem, eu estou tentando juntar tudo o que tenho conversado em um texto, pra mandar depois pra cá, se sair uma coisa que preste.

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